Sábado, 21 de Janeiro de 2012

CAVACO SILVA: FALTA DE DINHEIRO OU FALTA DE VERGONHA?

Por: Madalena S.



O meu pai começou a trabalhar numa pedreira, nas faldas do Douro, aos 12 anos. Por volta dos 20, veio para Lisboa e passou a trabalhar na construção civil. Era canteiro. Um operário especializado, que muitos consideravam um artista pela perfeição com que desempenhava as suas tarefas. Trabalhou e descontou mais de 55 anos. Quando morreu, em 1996, com 72 anos, recebia à volta de140 mil escudos de reforma (hoje equivalente a mais ou menos 700€).
A minha mãe ficou órfã de pai aos 7 anos e de imediato começou a trabalhar, no campo. Estávamos em 1934. Não fazia descontos que era coisa que nem sequer existia e durante muito tempo não existiu para os trabalhadores rurais.
Alguns anos depois, já adulta, começou a descontar para a segurança social como trabalhadora doméstica. Trabalhou a vida inteira. Hoje, com 84 anos, viúva e doente, recebe 446€ entre a pensão de velhice e invalidez (designação muito infeliz!) e a pensão de sobrevivência que é a parte a que tem direito por morte do marido (designação não menos infeliz, embora muito mais exata - sobrevivência!).
Pergunta-se: - então e as poupanças? Não fizeram?
Fizeram sim. Fizeram as que puderam. Fizeram as que lhes permitiram criar e educar dois filhos, e ajudar a criar e a educar 3 netos; comprar uma televisão apenas em 1971 ( a televisão já existia desde 1956 com emissões regulares a partir de Março de 1957); comprarem a casa onde a minha mãe ainda hoje vive, num bairro operário, um primeiro andar num prédio de 3 andares, sem elevador  mas com vinte e oito inquilinos.
Lembro-me de ver a minha mãe a lavar a roupa no tanque, fosse verão ou inverno. Quando comecei a trabalhar, fiz um mealheiro e, com os primeiros ordenados, comprei-lhe uma máquina de lavar roupa. Estávamos em Junho de 1975. A minha mãe tinha 48 anos quando, pela primeira vez na vida, teve direito a descansar as costas do tanque da roupa!
Diga-se, em abono da verdade, que nessa época os eletrodomésticos valiam a pena - a máquina ainda hoje é a mesma, trabalha ininterruptamente há 36 anos, com duas ou três reparações apenas, em todo este tempo.
Os meus pais nunca tiveram carro. Nunca foram ao estrangeiro. Badajoz incluído. Raramente, mas mesmo muito, muito raramente, iam ao cinema, ou jantar fora, ou ao teatro.
As férias, quando passaram a existir (apesar de haver legislação garantindo direito a férias desde 1937, até ao 25 de Abril de 74 ela só abrangia parte dos trabalhadores e, no máximo, dava direito a 8 dias de férias ao fim de "5 anos de bom e efetivo serviço") eram aproveitadas para pintar a casa, fazer limpezas e ir à terra, a casa dos meus tios, em Marco de Canavezes.
Tal frugalidade de vida não significa muitas poupanças, antes pelo contrário. Significa, isso sim, que os ordenados mal chegavam para a sobrevivência da família com um mínimo de dignidade, quanto mais para fazer poupanças.
Agora eu: comecei a trabalhar com 18 anos. Nunca parei. Fiz uma licenciatura e um mestrado enquanto trabalhava e cuidava da família. Tenho 36 anos de descontos ininterruptos e de impostos pagos religiosamente ao Estado português. Vivo melhor que os meus pais. Tenho televisão, DVD e aparelhagem. Tenho carro e, de há mais ou menos uma década para cá, tenho feito pelo menos 15 dias de férias, por ano, na praia, no Algarve ou no Sul de Espanha.
Já fui ao estrangeiro. Claro que agora vou deixar de ir e certamente que deixarei de fazer 15 dias por ano de férias na praia. Não há como pagá-los e não tenho casa de família em Boliqueime. Também não sei se continuarei a poder ir jantar fora de vez em quando, ou ao cinema, ou ao teatro. Até porque tenho de cobrir o que falta na pensão da minha mãe ( a meias com o meu irmão) para ela poder ter que comer, que vestir, que calçar e ainda poder comprar os medicamentos de que necessita diariamente.
Se a atual legislação não mudar, poderei reformar-me sem penalizações quando tiver 65 anos. Nessa altura terei feito descontos e pago impostos durante 47 anos. Para além do contributo que dei ao País com o meu trabalho.
Mas dificilmente terei feito poupanças. O que me coloca perante uma situação um bocado angustiante, tendo em conta as dificuldades que o Presidente da República confessou aos portugueses estar a sentir, mau grado as duas pensões a que em direito, uma das quais é de apenas 1300 € por mês, não sei se ouviram, ou leram, bem: 1300€ por mês.
Ora a outra é certamente mais elevada e, além disso, apesar de estar na Presidência da República em regime de voluntariado, uma vez que optou por receber as pensões em vez do ordenado de Presidente (porque seria? O homem é catedrático de economias, deveria saber fazer contas) tem direito a 2900 € de despesas de representação, quantia substancial e significativamente superior ao meu ordenado mensal.
Se nestas circunstâncias o homem está aflito, o que há de dizer a minha mãe, com os seus 446€? E eu, que nem sei quanto me irá calhar, se é que algum dia me calhará algum?
Espero sinceramente não ter de fazer hemodiálise depois dos 70 anos.
 

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